sábado, 5 de março de 2011

Entrevista com Mozart Couto


Olá amigos, voltamos com mais uma entrevista no designcomics!
Esse mês o entrevistado é o grande mestre  Mozart Couto, um veterano do quadrinho nacional que já publicou no Brasil, EUA e Europa e hoje se dedica à ilustração de livros na maior parte do tempo, mas sem deixar de lado a nona arte.
Ele nos conta sobre sua carreira,trabalhos e o que o fez sair do mercado de HQs norte- americano para entrar no mercado nacional de ilustração.
Aqueles que tiverem interesse em adquirir cópias em papel fotográfico de suas imagens, nos tamanhos A4 e A3 podem entrar em contato pelo e-mail:mozartcouto@gmail.com.

Isso e muito mais!

Boa leitura!

Por favor, apresente-se para aqueles poucos que ainda não sabem quem é Mozart Couto.
Eu sou um mineiro, da cidade de Juiz de Fora, casado, pai de duas filhas; Vegetariano (me tornando, aos poucos, vegano), por amor e respeito à natureza; Gosto de uma vida tranqüila ,e de vários outros tipos de arte. Tenho poucos e grandes amigos e gosto muito de desenhar. Comecei bem cedo, talvez por volta dos 6 anos, a desenhar com muita freqüência. Aos 20, comecei profissionalmente depois de um período de estudos e prática intensos com muita ajuda de meu pai, que era músico e desenhista também.

Quando o correu o instante em que você disse: quero ser desenhista!?
Acho que desde criança eu já sentia isso. Nem foi preciso pensar muito.


Como foi seu começo de carreira?Que dificuldades enfrentou?
Eu tive uma HQ rejeitada no início. A primeira que enviei para o Grupo de Quadrinhos da Grafipar, uma editora que publicou muitos quadrinistas nacionais e foi responsável por um dos grandes movimentos do quadrinho nacional no final dos anos 70. Depois, aceitaram as outras e me deram muito espaço. Então, posso dizer que nunca tive grandes dificuldades no início.

Quando e como ocorreu sua inserção no mercado americano? O que houve de bom e de ruim nesse período?
Eu vinha de uma experiência no mercado de quadrinhos Europeu, então o Deodato (Mike Deodato), companheiro de quadrinhos de longa data, me chamou para ajudá-lo a desenhar umas páginas da Wonder Woman para a DC Comics. A partir daí, fiz várias outras coisas com ele, no “Deodato's Studio” ( ele , eu e o Emir Ribeiro) e depois, sozinho, durante algum tempo. De ruim, não aconteceu nada. De bom foi que eu resolvi que não queria fazer “comics”, porque descobri que nunca fui um desenhista de “comics”, embora tenha me inspirado em muitos desenhistas americanos, e que não estava a fim de trabalhar naquele tal de “deadline”, que é um modo excelente de se esmagar uma pessoa que gosta de fazer um desenho com calma e com gosto. E a partir daí, descobri que poderia fazer mais coisas além de quadrinhos. Descobri novos mercados e me senti melhor.

Você também publicou na Europa. Analisando a tradição brasileira em produção de álbuns estilo grafic novels, alguns inclusive de sucesso(Rafael Grampá, Fabio Moon e Gabbriel Bá por exemplo), você acredita que o mercado europeu seria uma opção para os autores/artistas nacionais apresentarem seu “material real” ?
Talvez sim,mas, para aqueles que desenham diferente de muitos que cresceram aprendendo a desenhar no estilo comics. Na Europa há uma outra visão de como fazer HQ, bem diferente do modo como grande parte dos brasileiros pensam que tem que ser. Os cenários tem muita importância e as histórias são mais inteligentes, não são atreladas a uma ideologia de afirmação de superioridade de um povo sobre outros.

Nos últimos anos você tem se dedicado á ilustração de livros. Qual o motivo? Gosto pessoal ou desilusão em relação à realidade do mercado nacional de HQs ?
Gosto pessoal. Eu aprendi a gostar de ilustrar. E também por necessidade de sobrevivência. Eu me dei bem melhor com ilustrações e trabalhos avulsos para vários clientes do que com quadrinhos. Há um momento em que desenhar quadrinhos vai ficando muito cansativo e é muito bom ter como variar.

A versatilidade de estilos é algo notório em seu trabalho, inclusive você está entre os poucos que conseguem executar trabalhos em diversos estilos sem perder qualidade. Você acredita que nos dia de hoje é importante o ilustrador dominar estilos variados?
Eu acho isso muito importante, mas infelizmente, parece que muitos clientes acham que você só pode fazer uma coisa (um estilo, um gênero...). Me lembro que meu agente na Europa me contava como os editores ficavam admirados de ver como eu conseguia variar. Eles não acreditavam muito que era a mesma pessoa fazendo coisas tão diferentes.

Algo comum nos dias de hoje é o uso de referencial fotográfico para HQs e ilustrações, principalmente em casos de desenho mais realista .Você costuma utilizar referencias fotográficas? O que acha desse tipo e recurso?
Raramente eu utilizo, porque sinto que isso te prende àquela visão toda perfeita da foto. Com o tempo, a dependência só vai aumentando e você não consegue mais desenhar de imaginação.Vai sempre querer ter aquele resultado “perfeito”, seguro, e semipronto que a foto te dá. Embora o desenho com base em fotos seja muito bonito, eu prefiro e acho que tem muito mais valor uma arte feita do nada, do papel ( ou do arquivo aberto )em branco. No meu modo de ver, referências fotográficas devem ser utilizadas mais para se tirar dúvidas quanto às coisas, ou detalhes delas, que vamos retratar no desenho.
Acompanhando seu blog, o blog do desenhador, pude notar que você tem utilizado bastante o digital, em especial o Gimp. Quando ocorreu essa migração da tinta para os pixels do computador? Você acredita que o digital tomou ou poderá tomar o lugar da técnica tradicional, como aquarela, guache etc.?
Desde 1997 eu venho aprendendo a lidar com os recursos digitais. Em 2002 descobri o mundo do Software Livre e achei sensacional a ideia toda, o conceito, a filosofia envolvida, e resolvi testar pra ver se funcionava. Acabei me viciando. A coisa é fascinante. Hoje eu trabalho com Linux e muito raramente utilizo algum software de empresas famosas e que rodam só em MAC ou em Pcs com Windows.
Eu acho que sempre vai ter gente usando as técnicas tradicionais. Elas são ótimas. Mas para acompanhar as exigências do mercado de hoje, o digital atende muito mais ao artista. Ainda mais quando é necessário corrigir e/ou refazer imagens.

Cite seu top 5 do desenho, aqueles que lhe influenciaram/influenciam e que para você são insuperáveis na arte de desenhar.
Ah, eu nunca consigo fazer isso, ainda mais uma lista tão pequena. Eu sofri influência de todos os grandes quadrinistas dos quais vi os trabalhos nos anos 70 e 80; do Brasil, Europa, EUA e Japão.

Você foi um dos colaboradores do Guia do Ilustrador, que por sinal é muito bom e instrutivo. Qual a importância, em seu ver, da prática profissional entre ilustradores no que diz respeito a contratos, abertura de firma, emissão de boletos de pagamento etc.?
Eu acho importantíssimo tudo isso para que possamos ser vistos como profissionais sérios e para que possamos ter um resultado mais estável do nosso trabalho. Muitas conquistas ainda terão que vir. Eu vejo que as coisas estão mudando, e espero que a relação ilustrador/quadrinista e cliente seja mais compensadora para ambos os lados e não somente para um deles, como sempre foi. É necessário que todos os que começam agora tenham em mente a necessidade do conhecimento de tudo o que é sugerido no Guia e tente colocar em prática para que se façam respeitados, fortalecidos.

Quais seus projetos atuais em termos de quadrinhos? Algo novo nos espera?
Eu tenho alguns projetos sim, mas eles vão andando em ritmo muito lento porque sempre tenho que pará-los para fazer meus trabalhos cotidianos, que são prioritários. Eu penso em tentar algum tipo de produção independente usando novos recursos da web e outros, porém, estou estudando todas as possibilidades com calma. O que pretendo mesmo é fazer algo bem autoral mesmo e encontrar um caminho direto, uma via direta com o público leitor, pela web. Eu espero que isso dê certo. Enquanto isso, pelo menos uma HQ já está entrando na fase final de produção e breve será impressa. Foi escrita por um amigo e amante das Hqs, Alexandre Grincenkov, e quadrinizada por mim. Chama-se “Veneno de Deus”. É um arco de 4 Hqs de 44 páginas cada e narra a saga de um jovem que foi criado por satanistas para governar o mundo.

Fale sobre seu dia-a-dia de trabalho. Trabalha em casa ou em estudo separado?
Trabalho na minha casa. Sempre trabalhei. Acho bem melhor assim para criar e ter o controle que preciso de todo o processo. Trabalho em média de 8 a 9 horas por dia, de segunda à Sábado e, algumas vezes, aos Domingos também.

Quando Mozart Couto não está ilustrando ele está fazendo o que?
Eu fico experimentando programas para artistas; Aprendendo mais sobre Software Livre e sobre arte digital – sempre ouvindo música; Navegando e pesquisando na internet. Encontro os amigos, pessoalmente, ou via Skype; Fico com a família e os bichos da casa... enfim, é uma vida comum. Mas a maior parte do tempo passo na frente da “tela”.

O que você deixaria como conselho para aqueles que estão iniciando carreira(como eu) e os que pretendem seguir essa vida trabalhando com desenho?
Estudem muito e pratiquem muito- sempre. Se puderem fazer bons cursos, façam. Fiquem sempre de olhos bem abertos pois cada dia surge uma profissão, ou atividade nova nessa área artística/tecnológica e você pode se encaixar numa dessas. Aprenda a viver na instabilidade pois o mundo será assim daqui pra frente, durante um bom tempo.

Para finalizar, diga o que quiser. Grite, desabafe, enfim, o espaço é seu!
Eu sempre gosto de falar isso para os mais jovens: sejam vocês mesmos! Tomem cuidado para que não te utilizem. Não cooperem com a massificação. Aprenda a desenvolver um senso crítico e respeite muito sua arte, lute por ela, lute por sua individualidade, mesmo trabalhando com grupos.

Bom, muito obrigado Mozart, foi um imenso prazer em poder entrevistá-lo.
Eu é que agradeço. Abração.

Grande abraço.

Blog de Mozart Couto: http://www.blogdodesenhador.blogspot.com


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