terça-feira, 19 de maio de 2009

ENTREVISTA SEBASTIÃO SEABRA



Puxa vida...
Parece que faz uma eternidade desde o nosso ultimo entrevistado!Mas calma crianças, pois acabou o tormento.Dessa vez, o nosso entrevistado é nada mais,nada menos que Sebastião Seabra!Ele nos contará sobre sua carreira, desde como a iniciou, o que faz atualmente e ainda falará sobre o mercado americano e nacional. Tudo no estilo Seabra:sem delongas.Na lata!Divirtam-se e até a próxima!


Bom, começando pela clássica e (por que não dizer) talvez batida pergunta: como você começou a desenhar? O quê ou quem contribuiu para seu envolvimento com desenho/HQs?

SEABRA - Acho que minhas influências foram os seriados de domingo no cinema... Depois as séries de TV (Jornada nas Estrelas, Zorro, etc...) e, assim que comecei a ler os gibis, Fantasma, Zorro e Sargento Rock foram fundamentais em me criar o gosto pelos gibis. Em seguida, a Marvel. Ai foi detonante.

Em uma biografia sua que li em um site, dizia que você estudou desenho (anatomia) a partir de um exemplar do livro Desenho e Anatomia, do americano Victor Perard. Fora isso você chegou a fazer algum curso ou aprendeu tudo na raça?

SEABRA - Sou auto didata. A única coisa diferente que fiz, foi freqüentar um tempo - todas as quintas feiras - um curso livre de modelo vivo na Pinacoteca do Estado, em São Paulo.
Modelo vivo é fundamental pra quem estuda anatomia humana.
Mas estudei muito e com afinco, os livros de anatomia humana e vários desenhistas de HQ.
Estudo até hoje. E estudo com paixão, médoto e com freqüência. Só assim você desenvolve algo que vale a pena.


Que artistas exerceram ou exercem influência em seu modo de desenhar?

SEABRA - Neal Adams foi meu grande professor. Meu ídolo maior na época. Ao mesmo tempo que eu o idolatrava, era frustrante, pois não tinha a mínima esperança de chegar perto do traço dele (ainda não tenho, rs). Mas tive outros mestres, e com o tempo vi que cada um, a sua maneira, era extraordinário. A lista é imensa: Jack Kirby, Steve Ditko, Wallace Wood, Alex Raymond, Milton Canniff, Hal Foster, etc...




Assim como a maioria dos grandes mestres do quadrinho nacional, você colaborou com a editora Grafipar de Curitiba, correto? Conte-nos como chegou à editora, e quais trabalhos antecederam essa fase.


SEABRA - A Grafipar foi a grande escola profissional para toda a minha geração. Eu era um garoto, e antes de publicar lá eu só havia publicado em jornais, tiras cômicas e uma de aventura.
Paralelo a Grafipar, eu escrevi e desenhei a revista do Zorro (capa e espada) para a editora EBAL, do Rio de Janeiro.


Um de seus trabalhos mais recentes está sendo o projeto Insurreição, em parceria com o Roteirista Alex Mir e com o Alzir Alves do Rascunho Studio correto? Pode nos contar um pouco sobre o projeto?

SEABRA - Insurreição, uma HQ para um álbum de 66 páginas, é um trabalho profissional e pessoal do editor e roteirista Alex Mir - que banca todo o projeto - que me convidou a desenhar um roteiro dele, coisa que venho fazendo com muito prazer.
Estou fazendo em preto, branco e cinza, que é provavelmente como será editada..
Posteriormente o Alex encomendou cores ao colorista Alzir Alves... Para uma também provável edição colorida.


Como é trabalhar com essa equipe? Você tem liberdade para acrescentar elementos na história ou tem que seguir a risca o texto?

SEABRA - Nesse caso específico o Alex Mir me passou o texto e me deu total liberdade. Mas eu procuro seguir o roteiro a risca. É um belo trabalho e eu tenho um certo pudor em ficar mexendo. Uma mudança ou outra (ou várias) creditaria a pressa e as limitações do trabalho e do meu desenho, rsss...


Fora os quadrinhos em que você tem trabalhado fora as aulas de desenho?


SEABRA - Bom... muita coisa... Até meados de 2008 eu seguia fazendo de tudo: charge política para jornal, quadrinhos para o mercado nacional, ilustração de livros, publicidade, minhas apostilas, lecionava as aulas do meu Curso de Desenho, etc... Parei com tudo isso e voltei a trabalhar e produzir apenas histórias em quadrinhos.
No momento (desde outubro de 2008) faço HQ para vários editores independentes e um ou outro projeto para as grandes.


E falando em aulas de desenho... Como é para você ensinar outros a desenhar? Qual o perfil daqueles que buscam seu curso?


SEABRA - É... Frustrante. Acho que essa é a palavra. Quem tem a chama, desenvolve até certo ponto, mas raramente vai além. E quando vão, quando acontece o "pulo do gato" e começam a desenhar legal, não há mercado de trabalho.
Pra ser mais exato, quando o jovem está ficando bom, amadurecendo o traço, ele já está na idade de trabalhar, então, invariavelmente, ele abandona tudo e arruma um emprego qualquer. Isso eu já vi acontecer muito. Artefinalistas fantásticos e gente com traço muito bom que abandonou para sempre o sonho de fazer HQs.
Quadrinhos no Brasil é uma coisa muito ingrata.



Você já publicou na Europa, correto? Qual o motivo de encerrar esse trabalho? Se tivesse oportunidade voltaria a fazer isso?

SEABRA - O motivo foi as opções da equipe econômica do governo Collor. A gente recebia em dólar e, de repente, o valor essa moeda caiu pela metade. Ficamos
duros e ficou inviável produzir pro nosso agente na época. Ele não entendeu esse problema e não concordou em aumentar o preço que nos pagava por página. Ai todo mundo parou. Voltamos a trabalhar para o mercado nacional...


Um estúdio que atualmente agencia desenhistas para os EUA é o Rascunho Studio do Alzir Alves (com quem você trabalhou em Insurreição). Ocorreu alguma proposta de agenciamento? Você gostaria de trabalhar com HQs americanas?

SEABRA - Não acontece assim. Não recebemos proposta. Isso é privilégio de raríssimos medalhões das HQs mundias, que tem seu trabalho reconhecido internacionalmente, ou seja, Moébios recebe proposta, o restante faz testes, entrega a algum agente e espera pelos resultados. Eu nunca fiz (nunca finalizei) testes e entreguei a agentes.
Já que tocou no assunto, ouço tanta gente dizendo tanta bobagem que gostaria de opinar.
Esse lance de testes é uma coisa muito democrática. Se o artista for bom ele é contratado. Só isso.
Não existe "panelas" ou qualquer conversa fiada do gênero. Na indústria dos quadrinhos não há espaço para esse tipo de coisas.
O que acontece é que os aspirantes a desenhar para o mercado americano parecem não entender certos critérios que os editores adotam.
O que pode ocorrer são suscetibilidades, já que cada revista tem um editor, e o editor da revista B pode achar meu traço o máximo e me contratar, enquanto que o editor da revista A pode achar meu traço um lixo e não me contratar. Só isso.
Todos sabem (espero) que não é apenas o traço que conta. Uma coisa é o sujeito fazer um belo, excelente painel, outra é fazer páginas e mais páginas de histórias em quadrinhos; achar solução pra tudo: cenários, indumentárias, gestos, expressões, elementos mil, narrativa, etc... Ou seja, ser um desenhista perfeitamente razoável, ou genial, como são caras tipo Deodato Filho, Bené Nascimento ou Rogério Cruz (e outros).
Mas, mesmo se o cara não for genial, terá de ser absolutamente técnico.
O mercado americano é muito competitivo.
Enfim, fazer HQ não é pra qualquer um. O resto é conversa fiada.
Falo isso de cátedra porque ouço conversa fiada o tempo todo.
Sou professor.
Sim, eu gostaria demais de trabalhar para o mercado americano (ou qualquer mercado que me pagasse um salário digno), mas um misto de provável incompetência, baixa auto estima ou sei lá o que me impede de finalizar um mísero teste.


Como foi adaptar Memórias Póstumas de Braz Cubas para HQ? Qual o lado bom e o lado ruim de fazer isso com uma obra de tão grande importância literária? O que se perde e o que se acrescenta?

SEABRA - Sabe... Eu tinha uma série de restrições, mas depois de ver a edição impressa (ficou uma belezinha) mudei de idéia. rs.
Vou tentar resumir essa resposta. Tinha um editor amigo meu - e também desenhista - que dizia o seguinte quando indagavam a ele sobre a qualidade do trabalho.
Ele dizia que fazer um bom gibi era como fazer um bom filme; tudo dependia do orçamento. E isso é o óbvio ululante. Você não planeja desenhar mal e correndo quando você ganha pouco. Você é levado a fazer isso devido a uma série de circunstancias. Se você tem apenas um trabalho e não ganha o suficiente pra comer e pagar tuas contas, então é obrigado a fazer dois, três ou mais trabalhos ao mesmo tempo, ai a qualidade despenca. É óbvio.
Se você vê artistas fazendo maravilhas num trabalho mal pago, pode ter certeza de que ele não depende daquilo lá. Tem outra fonte de renda.




Atualmente tem se falado em um crescimento dos quadrinhos nacionais, tem surgido bastante material feito no Brasil, como Tempestade Cerebral (Eloyr Pacheco e outros) e Ecos Sombrios (D.T.C. COMICS). Como você vê a situação das HQs feitas no Brasil? Você acha que pode estar nascendo(ou renascendo?) um mercado nacional que possa talvez um dia competir com os comics e mangás que vemos nas bancas
?

SEABRA - De uma maneira ou de outra, sempre houve material independente sendo produzido. São revistas de pequenas tiragens (500 ou mil cópias) locais, que não significam muita coisa a não ser para nós autores e para uns poucos e compreensivos (e tolerantes) fãs. É sempre um título ou dois. Artistas como o Deodato Filho e o Emir Ribeiro sempre produziram suas revistas... Altair Gelatti também, e aposto que você nunca ouviu falar dele. Não ouviu exatamente por isso, porque são experiências locais, entendeu?
Quadrinho nacional – mercado de trabalho - seria uma grande empresa bancando tudo, pagando seus autores e produzindo revistas de alta tiragem, e vários títulos, para todo o território nacional.
Quando eu era garoto tinha muito mais revistas independentes sendo produzidas. Eram nossos fanzines. Eram locais. Tinham a mesma qualidade das de hoje em dia (exceto pela facilidade atual de impressão), mas nem porisso seus autores se iludiam achando que estavam "abafando" e sendo vistos por leitores de todo Brasil.
Como seria possível com tiragens tão pequenas?
Talvez a Internet seja a culpada dessa fantasia coletiva.
Não se iludam.

Sem falar que a maioria das edições independentes são feitos amadorísticamente. Nem pagamento rola. Parece que para o aspirante a desenhista é pecado receber por trabalho feito, daí ele trabalha de graça e “por amor a arte”, mas até quando esse garoto ou esse profissional irá trabalhar de graça? Até a água bater na bunda e ele ter de arrumar um trabalho. Ai, bye bye sonho de estourar nas HQs.
Mais uma coisa... Quando se adquire trabalho de graça não se pode cobrar qualidade tampouco continuidade...
Até onde você acha que uma publicação consegue chegar nesse esquema pobre?
Isso é quadrinho nacional? É mercado de trabalho?
Sou contra isso? Claro que não. Mas isso tem nome: fanzine. Não é uma publicação madura, com grande tiragem, tampouco qualidade. É uma publicação amadorística, feitas por fãs, portanto não é “quadrinho nacional”.

Por favor, diga aos atuais desenhistas e aspirantes o que eles devem fazer e buscar para ser pelo menos bons artistas...

SEABRA - Estudar muito, traço, forma e anatomia humana. Principalmente anatomia humana, que é à base de tudo.
Desenhista que se ilude e acha que "quando chegar à hora vai arrebentar" nunca consegue nada. É uma presunção tola.
E estar totalmente aberto a críticas. Aspirante a desenhista que vive de elogios fáceis e questiona tudo que alguém mais experiente lhe diz é um grande tolo, e irá passar a vida á margem de tudo e de todos, mesmo que um dia tenha tido algum talento... Mas, lamentavelmente, não teve a lucidez de desenvolver.
Ah, mais uma coisa: e largar a mão der ser bobo e parar de trabalhar de graça.
Explico:
Anos atrás eu soube de uma revista, bela revista que publicava só HQs bonitas, de artistas que estavam despontando... Pagava razoavelmente bem, mas, de uma hora para outra o editor resolveu não pagar mais ninguém. Ele alegou que recebia HQs do Brasil todo, e de graça, portanto não haveria mais razão para ele pagar pra ter bom material pra sua revista.

Enquanto nosso aspirante a desenhista ou profissional não amadurecer, nada irá mudar. Enquanto houver mais mão de obra do que trabalho, também não.
Agora, junte tudo isso a baixas tiragens, baixas vendas, baixo poder aquisitivo para comprar gibis e analfabetismo e você terá a resposta a sua pergunta acima.



Muito obrigado pela entrevista. Grande abraço.

SEABRA - Obrigado a você, Felipe.
Abração.