quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Entrevista Waldomiro Neto


E estamos de volta com mais uma entrevista. Desta vez,  o entrevistado é Waldomiro Neto, ilustrador e designer gráfico, atuante em diversos setores, como editorial, publicitário e promocional, além de professor universitário(sim, ele fez facul!). Ele fala sobre seu início de carreira, como se manter neste mercado mega disputado, sua experiência como professor e ainda entra na questão do politicamente correto. 
Chega de enrolações, vamos ao que interessa!

1 - Como foi seu inicio de carreira na área de ilustração? O que o levou a trabalhar no setor?
Bom, como todo ilustrador sou do tipo que sempre desenhou desde criança. Quando chegou a hora de fazer uma faculdade quis algo relacionado com desenho, então fui fazer desenho industrial com habilitação em programação visual ou simplesmente design gráfico.

Na faculdade eu vi que o design possibilitava muitos caminhos e todos muito fascinantes. O meu curso na época (entrei em 1998), era bem abrangente e  tínhamos aula de design de móveis, moda, embalagem, ilustração, história em quadrinhos entre outros.Mas por conta do gosto por desenhar eu fui buscando os caminhos do design gráfico e acabei depois de formado trabalhando em agências de publicidade, onde eu fiz um pouco de tudo, trabalhando muito com mídia impressa e com desenvolvimento de identidades visuais. Lembro de passar o dia todo dentro da gráfica para poder fazer prova de impressão, ou ainda diagramar páginas e páginas de folhetos e tratar muitas fotos.

Logo após a faculdade fiz pós graduação em web design, na época parecia o melhor caminho, web era a novidade do momento e  até trabalhei um pouco na área mas percebi logo que aquela não era a minha praia.
desde o início atuando como designer sempre dava um jeito de colocar os meus desenhos nos trabalhos, e aos poucos os desenhos foram tomando mais espaço, eu fui achando aquilo fascinante, gostando desse caminho e com o tempo as oportunidades em ilustração foram ficando maiores e tomando mais tempo.


2 - Seu estilo de desenho segue uma linha puxada para o infantil/cartoon. Em quais mercados você atua e qual técnica costuma utilizar em seus trabalhos (digital, tradicional, mista...)?
Lá no começo eu me intitulava como cartunista, tinha como referência o Angeli, Glauco e Laerte, achava o máximo os quadrinhos deles e queria trabalhar fazendo tirinhas, charges e quadrinhos.

Já fazia algumas tirinhas e também ilustrava alguma coisa pra um jornal ou outro, e continuava colocando meus desenhos nos trabalhos da agência sempre que dava, até que um dia tive a oportunidade de fazer algumas ilustrações para um livro didático. No começo foi complicado pois a linguagem dos didáticos é diferente da linguagem do cartum, apanhei bastante até conseguir pegar o jeito, e desde então tenho trabalhado bastante neste mercado.

Hoje faço um pouco de tudo, ilustrações para livros didáticos, paradidáticos e infantis, também ilustro para embalagens, materiais publicitários, promocionais e institucionais, como por exemplos cartilhas para empresas, também atuo no mercado das confecções produzindo ilustrações para estampas de camisetas e pijamas, faço charges e tirinhas para jornais e para web e também ilustrações para revistas.

Sobre as técnicas gosto muito de fazer tudo digital, utilizo bastante o photoshop e as vezes o painter e o corel, no papel mesmo somente os rascunhos para gerar as idéias, sempre ando com um sketch book para poder rabiscar.

As mesas digitalizadoras da Wacom,  foram fundamentais e agilizam muito o meu trabalho, tenho uma cintiq e também uma Intuos. Recomendo!



 3 - Você é Bacharel em Desenho Industrial com habilitação em Programação Visual e especialista em Web Design. Você também atua no mercado como designer ou largou tudo para ser ilustrador fulltime?
Costumo dizer que hoje ilustro 80% do meu tempo, porém ainda atuo como designer gráfico e também lecionei diariamente na universidade de 2006 a 2012, atualmente estou apenas lecionando em cursos de pós graduação e cursos técnicos que são mais esporádicos
Não decidi que iria ilustrar a maior parte do tempo, o mercado que foi caminhando para esse lado e aos poucos tive que deixar outras coisas um pouco de lado para poder dar conta dos desenhos, e isso pode mudar também no futuro, vamos desenhando conforme a música.


 4 - Conte sobre sua experiência como professor universitário. Que matéria você leciona? Você acha que ser professor influencia de algum modo na maneira de enxergar e/ou se posicionar no mercado, seja de design ou ilustração?
Como disse, lecionei 6 anos diariamente no curso de Desenho Industrial da Unopar em Londrina-PR, e também em outras instituições e escolas técnicas.Ensinar é muito bacana, a interação com os alunos é motivadora, ainda mais em um curso que é bastante prático e criativo como o design.

Sobre as matérias, eu lecionava Desenho de Observação, Composição Plástica, História em Quadrinhos, Projeto de Design e também era responsável por um projeto de extensão sobre Quadrinhos.Nas pós graduações eu já lecionei disciplinas sobre StoryBord e Animatic e também Ilustração Didática, tenho também um curso de Ilustração digital que leciono na VTCOM treinamentos que é uma escola técnica de Londrina.

5 - Pesquisando seu trabalho, vi em seu blog que você faz charges para jornais. Neste tipo de trabalho qual o maior desafio: a idéia para desenvolver o tema ou os prazos apertados?
Prazos apertados todo ilustrador está acostumado, acho que todos que trabalham com comunicação estão sempre correndo contra o tempo.

No caso das charges o mais difícil é você conseguir expressar um pensamento em desenho e ainda ter uma boa sacada para que essa charge seja "genial", e isso não acontece todo dia, aliás, raramente a maioria das charges são somente boas, algumas ruins e lá de vez em quando uma pode ser dita que é muito boa!


6 - Hoje existe em todo lugar e praticamente todas as áreas o famoso politicamente correto. Qual sua opinião sobre isso? Até onde você acredita ser necessário este controle do que é dito ou feito? Você já teve que refazer ou descartar algum trabalho por que a idéia estava fora deste “padrão”?
Acho que precisa ter um bom senso em tudo, mas isso não quer dizer que deva haver censura, o politicamente correto é muito chato.

Temos que saber para qual publico estamos desenhando, não vou ilustrar algo vulgar para colocar em um livro infantil e também não vou fazer algo todo fofinho para uma charge política.

Já tive sim que refazer alguns desenhos, adequar alguma coisa para poder ser publicado, na hora você fica meio chateado em ter que alterar o trabalho e  da vontade de jogar tudo pro alto, mas ninguém é dono da verdade, nem o ilustrador. É preciso conversar, saber argumentar sobre a sua ideia e também saber ouvir.


7 - Como ilustrador freelancer, é comum enfrentar períodos de baixa nas encomendas de ilustração, principalmente no caso de quem trabalha com arte para livros didáticos. Como você “se vira” nos períodos em que a demanda “dá uma esfriada”?
Didáticos é sempre assim, por conta do PNLD temos uma correria pra fechar os livros para a licitações, e depois os mercado da uma sossegada por uns meses, a idéia é diversificar fazer outras coisas ilustrar para outros clientes de outros ramos, desse modo você vai administrando para sempre ter trabalho.

Caso fique sem nada pra fazer, além claro de prospectar o que na realidade tem que ser feito o ano todo, o ilustrador pode também se dedicar a projetos pessoais até a entressafra passar.Claro que todo freelancer tem que ter uma poupança para os meses mais fracos, pois sabemos que é normal a oscilação da demanda seja qual for sua área.


 8 - Embora muita gente pense que ser ilustrador é fácil, pura diversão, a coisa não é bem assim. Qual sua visão sobre o mercado de ilustração atual? Quais as coisas boas e ruins do cenário atual?
Geralmente o ilustrador profissional trabalha no que gosta, se realiza diariamente produzindo, criando novas cenas, testando novas técnicas. Mas isso não quer dizer que seja divertido. Enfrentamos jornadas longas de trabalho para dar conta de tudo, muitas vezes temos que pegar muitos projetos para podermos ter um salário melhor.

Quando alguém me pergunta: mas então você passa o dia todo desenhando? Eu sempre respondo: Não, eu só desenho na parte da manhã! A tarde eu pinto tudo o que desenhei (RISOS)!
As pessoas têm uma definição que os ilustradores só brincam e se divertem o dia todo, temos um desgaste mental muito forte, compor as ilustrações, compreender os textos, fazer com que tudo combine, tenha uma identidade e ainda ter calma, paciência e precisão para desenhar e finalizar tudo, não é nada fácil.O desgaste físico também é complicado, pois ficamos muito tempo sentados e tensos para poder desenhar, aos poucos tudo vai travando e doendo.

Sobre o mercado, sempre pode ser melhor, mas não sou de reclamar. Sempre achei que não importa o que você faça se você for bom naquilo e trabalhar sério você será reconhecido e terá trabalho. Não gosto de ficar reclamando que tem gente que cobra muito pouco que está roubando clientes e isso prostitui o mercado. Acredito que tem espaço para todos, e existe um processo evolutivo que cada um deve buscar para crescer profissionalmente ou ficar a vida toda desenhando quase de graça.


9 - Que características o profissional deve ter ou desenvolver (fora o desenho) para entrar, crescer e se manter neste mercado tão disputado?
Acho que não tem receita, cada um segue o seu caminho. Quanto mais você trabalhar, mais frutos irá colher. Existem ilustradores que são autodidatas, outros arquitetos, designers, artistas visuais etc.O importante é investir em você, na sua formação, é importante ter uma base sólida para que você consiga perceber as coisas ao seu redor e refletir sobre elas. Para ilustrar é preciso sensibilidade e quanto mais você estudar melhor será a sua.

Seja observador, curioso e criativo.Sempre digo, desenhe todo dia! Acho que produzindo estamos aprendendo cada vez mais e exercitando nosso talento e assim crescendo e buscando mais espaço nesse mercado como você mesmo disse, tão disputado.

10 - Muito obrigado por esta entrevista. Pra encerrar, deixo este espaço para que você diga, divulgue ou expresse o que desejar!
Eu que agradeço a oportunidade, fico muito feliz em contribuir e de ter esse espaço para me expressar, espero que minhas palavras possam ser úteis de alguma forma.

Quem quiser saber mais, estou sempre a disposição. 

e também tenho minha fanpage no facebook: https://www.facebook.com/waldomironetoilustra

Abraços e obrigado!


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Entrevista Edde Wagner


Após um longo hiato, estamos de volta com as entrevistas com artistas e profissionais da ilustração, quadrinhos e afins. Nesta "reestreia", temos uma ótima entrevista com o ilustrador, roteirista e arte finalista de quadrinhos, Edde Wagner. Acompanhe abaixo um pouco de sua trajetória no mercado de quadrinhos e ilustração, o que pensa sobre o cenário atual, seus novos projetos e muito mais!

1 - Como se deu o início de sua carreira como desenhista/ilustrador? Você sempre sonhou
trabalhar na área ou as coisas aconteceram sem um planejamento exato visando entrar neste mercado?

Eu sempre gostei de desenhar e de criar (escrever). Já tinha desde criança isso em mente, estava sempre criando diversos personagens.Eu adorava Histórias em Quadrinhos, principalmente da Turma do Lambe Lambe, do Daniel Azulay. Eu tenho alguns até hoje!  Este gosto pela leitura (leio muito, quase compulsivamente) eu herdei de minha mãe.


 2 - Durante um bom tempo sua produção artística esteve voltada ao mercado norte americano de quadrinhos de super heróis, onde você arte finalizou o trabalho de artistas como Roger Cruz e outros ícones do meio. Como você entrou nessa de comics, qual o maior desafio de atuar neste mercado e o que o levou a sair dele?

Eu trabalhava no Estúdio Artecomics- Eu fazia LETRAS e TÍTULOS das revistas da Editora Abril - quando começou o BOOM desta participação dos brasileiros no mercado americano. Aí larguei a faculdade de Letras que estava fazendo e decidi entrar neste mercado. Comecei com arte-final em 1992/93 (Faz tempo!). Eu não deixei este mercado ainda. Estou por aí, mas produzindo menos.


3 - Atualmente sua produção está voltada em grande parte ao mercado de ilustração para
livros didáticos. Quando você decidiu se aventurar neste segmento e quais os desafios
enfrentados para conseguir os primeiros jobs e mais que isso, se manter neste mercado tão
concorrido?

Em 1997 eu montei um estúdio com o Al Stefano chamado HQZARTE. Íamos às livrarias, anotávamos os telefones das Editoras e ligávamos atrás dos Editores de arte. Na verdade, faço isso até hoje. Rsrs. O Rogério Soud me passou alguns dos primeiros contatos, também.Os primeiros testes não deram muito certo. Tínhamos a linguagem mais voltada para HQs e alguns Editores de Arte nos deram alguns toques no início.Com o tempo e experiência eu consegui disfarçar um pouco meus vícios trazidos de HQs. Mas só um pouco. Ainda tenho a mania de encher minhas ilustrações com detalhes sem importância.


4 - A rotina de ilustrador é bem corrida, e é comum que os pedidos de ilustrações sejam
sempre com prazos apertados . Como você resolve e organiza a produção das artes para estes clientes, já que normalmente os pedidos chegam em lotes de 20 ou 30 imagens (as vezes mais)?

Eu sempre fui rápido porque trabalhava com Quadrinhos. Não acho os prazos apertados, não.
Eu sou bem desorganizado. Sento e vou desenhando, nada de mais. Mas eu tenho a mania de fazer os desenhos mais divertidos primeiro. Isso já me causou alguns problemas, como me esquecer de fazer alguns desenhos que deixei para depois.

5 - Em 2013 você criou o estúdio MouseBox, em parceria com o também ilustrador Renato
Arlem, onde tive o prazer de participar como agenciado em um projeto de cards para a
MARVEL. Como surgiu essa idéia, quais os pontos bons e ruins ou fáceis e difíceis deste
empreendimento? Como anda a produção do estúdio?

Acabamos decidindo trabalhar em separado, embora o estúdio ainda exista. O Renato é um grande amigo, nos falamos quase diariamente.
Tivemos muitos problemas com alguns artistas. Este foi o lado ruim.
O lado bom era trabalhar com o Renato. Aprendia muito com ele, é um excelente desenhista. Mas eu sou muito falador e intenso.O Renato é mais reservado. Coitado dele, Rsrs.


6- Além de ilustrar, você também é roteirista e já escreveu várias histórias da Turma da Mônica para a Maurício de Sousa Produções. O que lhe dá mais prazer: ilustrar ou escrever roteiros? Quais os macetes para criar histórias envolventes, divertidas e que se enquadrem no Padrão MSP?
Eu sempre gostei mais de ESCREVER. Comecei como Roteirista, e sempre fiz roteiros para vários estúdios, não só a MSP. Fiz até Faculdade de Letras, pois achava que este seria minha verdadeira vocação.
Mas eu confesso que nunca deu muito certo. Acho que não sou muito talentoso, paciência.
Macetes na MSP? Acho que lá, assim como em outros meios de comunicação, trabalhar com criança tem que SURPREENDER, sempre. E a surpresa vem das reviravoltas nas histórias. Hoje em dia, em qualquer filme ou série de tevê ou novela, isso acontece o tempo todo, não só para crianças. Temos vidas muito agitadas hoje em dia, e isso acaba se refletindo nos meios de entretenimento. Acho.



7-Já que você desenha e escreve, já pensou em criar algo próprio, um projeto autoral de
quadrinhos ou literatura com suas histórias e seus personagens?

Estou desenvolvendo. Quem sabe eu consiga criar algo mais pra frente.
Eu e o Al Stefano criamos uma personagem pra extinta METAL PESADO chamada Lilith.Cheguei a bolar uma origem para ela, mas eu e o Alberto seguimos caminhos diferentes. 


8 - Que você é um profissional multitarefa, está mais que claro, e faz tudo muito bem. Como
foi a experiência de dar aulas de arte na Quanta (academia de arte)? O que mais o agradava
e/ou desagradava na rotina de ensino de artes?

Cara, eu amava dar aulas. Éramos muito amigos (professores), e já vínhamos trabalhando em HQs para os EUA. Sempre fui muito tímido, e lá meio que funcionava para mim como uma espécie de terapia, pois hoje em dia nem sou tão reservado como era antes de dar aulas.
Eu gostava mesmo era do contato com os alunos, de motivar o pessoal. Era meu verdadeiro dom, acho, pois nunca fui um professor muito técnico e/ou performático.
O que me desagradou no final foi a rotina. Foram 12 anos dando aulas! Conversei com o Marcelo Campos e saí de boa. Ele entendeu.


9 - Algum de seus alunos seguiu ou segue carreira como ilustrador? Pergunto isso, pois como
sabemos, muita gente desiste da carreira quando se depara com as dificuldades de início de
carreira, prazos, etc.

Nossa, muitos alunos seguiram carreira. Alguns viraram ilustradores, outros quadrinhistas e outros professores da própria Quanta, além da Impacto e Abra.
Muita gente! Não dá pra ter ideia.
Alguns viraram amigões pessoais, como o Gilberto Valadares, Alex Coi, Chris Borges, Samuel Fonseca, Mauro Fodra, David Lee...entre outros.


 10 - Muitos dos que estarão lendo esta entrevista trabalham ou pretendem trabalhar com
desenho ou roteiro, talvez as duas coisas. Como profissional experiente nos dois ramos, que
dica você daria para os que desejam entrar nestes mercados, ou até mesmo para os que estão em início de carreira e querem crescer e se manter vivendo de desenho e roteiros?

DESENHAR ou ESCREVER, assim como medicar, advogar ou até jogar futebol você alcança a excelência através da REPETIÇÃO. Se alguém quer ser desenhista, tem que desenhar MUITO.
Mas outra coisa é amar o processo, focar no aprendizado constante.


Para conhecer melhor o trabalho do Edde Wagner, acesse:

Até a próxima entrevista!