segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Entrevista com Douglas Felix

Bom, vamos começar pela clássica pergunta: como começou a desenhar e gostar de desenho/HQs?

- Desenho desde que colocaram um lápis na minha mão. E desde então curto HQs, comecei na Mônica, e parei no Conan. Mas lá pros 15 anos, a escola e sua conduta anti-artística disse que era muito feio eu ficar só desenhando em vez de estudar, que isso não ia levar a nada. Então só voltei a desenhar e ler gibis depois do ensino médio, quando descobri que desenhar quadrinhos era uma profissão. Entrei num curso e to na luta até hoje...


Você chegou a fazer cursos ou foi tudo na raça mesmo?


Os dois. Não basta ter curso. Tem que ter raça. Fiz dois grandes cursos, com dois excelentes artistas, o Luiz Meira, que se Deus quiser apresento ele pro mundo, e o Carlos Rafael, que o pessoal já conhece. Aprendi muito e ainda estou aprendendo. Me considero iniciante do iniciante. E quando der ($$) entro em mais um curso.




Pelo que pude analisar, antes de entrar no mercado americano você já era conhecido no meio independente, tendo publicado na revista front, colaborado na júpiter II, no site NA MUNHECA....Fale sobre essa fase...como começou, os prós e contras, etc.

Sinto muita falta Infelizmente não tenho tido tempo de sobra, e quando sobra estou tão cansado que não tenho vontade de nada. Mas vou dar um jeito nisso. Essas iniciativas são a necessidade pessoal de deixar uma marca, contar boas histórias, aprender, experimentar, etc.
Começou exatamente da necessidade de dizer – “ to aqui”, e de mostrar meu material. Comecei com o site, onde pude conhecer pessoas, grandes amigos que apresentaram a grandes amigos que pediam participação, parceria, etc...
Os prós são que você faz uma HQ do seu jeito, com a sua cara, com o seu modo de pensar, experimentar e etc. O contra é que você precisa ganhar dindin, e nem sempre você tem tempo pra conciliar isso com trabalho. Mas recomendo, se aprende muito dessa forma. E é muito divertido.


E a entrada no mercado gringo?Como conheceu/teve contato com o Rascunho Stúdio do Alzir Alves?
Rapaz, te falar que esqueci! Nesse meio, você vai conhecendo tanta gente, falando com tantas pessoas, que puxando da memória só me lembro do Alzir elogiando meu trabalho a primeira vez, dizendo que eu tinha potencial, e depois me dizendo que arrumei um título novo, concorrido entre muitos artistas! Como disse antes, amigos me apresentaram ou indicaram o Alzir, conversei com ele, mostrei meu trabalho, fiz amostras,e graças a Deus peguei um trabalho de primeira.



Quanto tempo levou até pegar o primeiro trabalho?Qual foi?Qual esta fazendo agora?

Muito rápido. Tanto que pra ficha cair demorou...rsrs...O editor gostou do meu trabalho de primeira, pediu uma página extra e peguei logo, algo assim...lembro só do Alzir parabenizando pelo título...foi bem rápido. Mas isso pela Rascunho, a luta pra chegar nisso, tem mais de 10 anos desde a primeira vez que pensei que podia ser um desenhista de HQs e desenhar lá pra fora.
Ah, estou no mesmo título até hoje, o Virgin Wolf. Pelo que soube, o editor decidiu lançar em formato livro, em vez de gibis, aí ele quer meu trabalho em todos os capítulos. São oito, estou no sexto.

Vendo entrevistas com artistas como Ivan Reis,Ig Guara,Deodato e outros vi que todos eles gastam um tempo considerável na execução de suas páginas(cerca de 8 ou 9 horas, as vezes mais).Quanto tempo você leva pra desenhar uma página?E quanto a referencias, você as utiliza?

Hummm...é uma boa pergunta, geralmente faço uma página mais ou menos nesse período também. Quando estou inspirado, faço uma página e meia por dia, mas depende do roteiro. Mas perco mais tempo mesmo atrás de referencias. Sou horrível pra encontrar! Graças a Deus, o Alzir me manda um bocado de referência, mas as vezes acho que preciso de uma outra, pra acrescentar mais, e aí demoro muito pra encontrar. Uso filmes e fotos.




Como é seu processo de trabalho?Recebe o roteiro e ai...

Torço pra história ser no mundo invisível onde tudo é invisível! Rsrs..Recebo o roteiro, leio rapidamente só pra ver o que me aguarda, depois leio com calma tentando visualizar as cenas, e aí releio novamente, desta vez desenhando os thumnails que vão me guiar durante essa jornada. A partir desses thumbnails aprovados pelo editor, já passo pro lápis, e aprovando, arte-finalizo, se for o caso.
Costumo trabalhar mais de madrugada, a partir das 11 da noite até umas quatro da manhã, durmo, acordo, e na parte da tarde, já dou uma adiantada, e fica nesse brincadeira até terminar a edição.


É comum o desenhista ter dificuldade em desenhar certas coisas ou até mesmo gostar mais de desenhar isso ou aquilo.No seu caso,o que mais curte desenhar e o que mais detesta?Você tem dificuldade em desenhar algo ou hoje em dia sai tudo na boa?

Gosto mais de desenhar pessoas, closeups, cenas dramáticas...sai mais fácil. Mas eu gosto muito de desenhar cenas de ação, mas confesso a dificuldade em criar cenas que impactem o leitor, esse é o desafio. Acho que vou sentir essa dificuldade sempre, por que me cobro muito.´
E odeio desenhar multidão, não tenho dificuldade quanto o desenho em si, mas é tão cansativo, que quando termino, só me resta desmaiar, muito extasiante.



Falando do mercado nacional...depois que começou a publicar nos EUA surgiram propostas aqui no BRASIL? O que mudou entre o Douglas de antes e o de agora?Você tem algo pro mercado nacional?

Ih rapaz, acho que ninguém me conhece não..rs...Sempre que posso colaboro com o José Salles, da Júpiter 2, que é ma honra fazer parte dessa família, que pra mim é uma família. E se tem diferença entre antes e depois, bom, pessoalmente agora só falo com quem marca hora e pede permissão. Brincando, hehe. Não sinto mudança não, na verdade apenas me sinto com o dever de dar esperanças a todos que estão batalhando pra conseguir seu espaço e dizer – galera, eu consegui, vocês conseguem também!
Já profissionalmente sim, ganhei bastante experiência, e ainda ganho aprendendo como deve se portar um artista que trabalha pra fora, no que tange a prazos, qualidade. Etc...
Pra fora, eu tenho milhares de idéias que penso ao lados de amigos meus, que pretendo colocar no papel, de alguma forma, não consigo ficar com isso tanto tempo trancado só na mente! Mas pronto, acho que tenho algumas coisas na gaveta, que não vingaram com as editoras daqui...


Desabafe...Diga agora tudo o que sempre quis dizer para editores, fans, enfim...fale o que quiser agora!

Editores – Ei! To aqui! Conversem com meu agente que rola trabalho!
Fãs – Ei, tem alguém aqui? Rsrs
Galera que ta na luta, vai aqui o velho clichÊ que todo desenhista fala pra quem ta começando: Cai dentro, estude, desenhe, estude, desenhe, treine, leia gibi, veja filme, leia livro, faça exercícios (sua coluna agradece), estude, desenhe, mostre pras pessoas, mas não faça beicinho só porque riram do seu desenho ou falaram mal dele. Tente tirar algo de útil na crítica e repita todos esses passos que falei. Segura a onda da família dizendo que não vai dar em nada, olhe pra sua meta, e concilie trabalho/estudo/prática de desenho, por que você também precisa pingar um cascalho na mão da mamãe/papai/esposa! Faz bem! E não desista, por que quando você menos esperar, seja em 1 mês ou 10 anos, como foi meu caso, você pega seu primeiro trabalho pra alguma editora independente lá de fora e você vai comemorar como se fosse vitória em final de Copa do Mundo!
Aí dois disso, você repete tuuuudo que falei, só que dessa vez pra se manter no mercado. Mas como eu disse, se eu consegui, vocês conseguem!


Muito obrigado, pela entrevista.Sucesso!
Valeu, fica com Deus e vamo que vamo! Vamo cair pra dentro!

2 comentários:

Dias disse...

"Torço pra história ser no mundo invisível onde tudo é invisível! Rsrs.."
HEHE..essa foi boa..
Sucesso cara.

Dias

MAURO BARBIERI disse...

ótima entrevista, Sucesso Douglas!